Quando voltava para casa após os primeiros treinos ficava pensando, onde eu estava com a cabeça e onde é que eu fui me meter...

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Devo confessar que quando resolvi inscrever-me para participar do 2º Cuinkado da EKADO (Curso de Instrutores da Escola de Karate-Do do Brasil), eu estava muito apreensivo no início. Eu ingenuamente achava que já sabia praticamente tudo que seria abordado no curso e que eu iria apenas fazer uma boa revisão de tudo. Foi ai que eu me enganei.

 

Pelo fato de nunca ter dado aulas de Karate na minha vida, eu tive receio de não corresponder às exigências do curso, principalmente por ser ministrado pelo Sensei Ennio Vezzuli, uma pessoa que além de indubitavelmente capacitada, é extremamente exigente e sabidamente formal durante todos os treinos.

Logo na primeira aula fomos todos informados que seriamos tratados como se fossemos iniciantes, faixas brancas, independente de graduações (seria como se estivéssemos todos começando a treinar karatê do zero a partir daquela data). Nós iríamos começar aprendendo como nos comportar no Dojo, a cumprimentar corretamente, entrar no Dojo, sentar, quando, como pedir autorização para falar, para sair, etc. Fomos muito bem advertidos do rigor do que seria exigido durante todos os 18 meses do curso, tanto do ponto de vista físico como teórico, em esquema de tolerância zero para determinadas situações.

Quando voltava para casa após os primeiros treinos ficava pensando, onde eu estava com a cabeça e onde é que eu fui me meter...

Eu era 3º Dan e estava na época com 52 anos, sou médico e moro a 150 Km do local do curso e, para chegar sem atraso, deveria acordar no sábado as 5h e dirigir 2 e 1/2 horas. Quem chegasse atrasado simplesmente não treinava e levava falta (regras são regras e portanto não são negociáveis).

O curso prosseguiu e eu me senti por vezes frustrado ao perceber que não sabia tudo aquilo que eu pensava que sabia, pelo menos da maneira correta (saber é uma coisa, saber fazer, conseguir fazer e ensinar a fazer corretamente, são outros quinhentos).

Com o decorrer do curso, a convivência tornou-se extremamente produtiva em termos de aprendizado e, tornou-se uma das coisas mais prazerosas que eu fazia. Consegui corrigir defeitos arraigados há décadas e, acima de tudo, aprendi a fazer as coisas corretamente e sabendo exatamente o porquê de tudo que fazia. Sem isso, seria como tentar aprender matemática decorando a matéria.

Abaixo eu cito algumas das coisas que mais produtivas do curso (no meu caso) e que mais me beneficiaram. Hoje eu me esforço para colocar em prática tudo que aprendi, em cada treino que faço.

Podem parecer coisas simples e/ou óbvias, mas entre falar e conseguir fazer corretamente e de maneira automatizada, existe uma diferença muito grande.

  • Aprendi a comportar-me adequadamente em um ambiente de treino e hoje me sinto à vontade para visitar qualquer academia em qualquer lugar, sem constrangimento por não saber como proceder.
  • Quando faço algo errado sou o primeiro a perceber e tento corrigir (me tornei crítico em tudo e com todos).
  • Corrigi defeitos de socos, chutes, defesas, Kihon, Kumite, etc., tanto na postura como na maneira que devem ser realizados.
  • Aprendi a contrair e relaxar, alternar entre ritmo rápido e lento, comprimir e expandir na hora certa, perceber o melhor momento para golpear em diferentes situações e adequar a respiração ao momento.
  • Aprendi para que realmente serve o Mokuso e evocar um estado de espírito necessário e apropriado para treinar, bem como a necessidade de permanecer alerta (apesar de relaxado) durante todo o treinamento.
  • Aprendi a transferir corretamente o peso e o centro de gravidade nas diferentes bases e desequilibrar menos nas mudanças de posição.
  • Melhorei a habilidade de exercitar o "no motion".
  • Entendi a enorme importância e que existe na tração da perna da frente, que é usado em quase tudo e como usar o peso no pé dianteiro no início do movimento, conseguindo avançar sem mexer o mesmo e sem "motion" (Unsoku).
  • Entendi que quem proporciona a maior parte da potência ao golpe é a perna de trás (a que empurra o chão) e não o quadril, como eu sempre aprendi e compreendi como se deve sincronizar o tempo do golpe com o de aplicação da técnica.
  • Aprendi a sempre buscar golpear em pontos vitais e sempre encarar cada golpe como único e decisivo (Kime-Waza). Coreografia não faz parte do Karate-do. Dessa forma, aprendi a evitar o desperdício desnecessário de energia (princípio da economicidade), diminuo meu gasto de energia e otimizo minha respiração nos treinos.
  • Não existe treinamento "light" e nada se consegue de graça. Quanto maior o número de repetições realizadas corretamente, maior o desenvolvimento da memória muscular. Quem aprende errado tem o trabalho de primeiro desaprender o errado para depois aprender o certo.
  • Tudo que treinamos é sempre imaginando um cenário real, por mais que seja um treino combinado. Quem não treina dessa forma, prejudica a si mesmo e ao colega de treino. Não existe amizade durante os treinos, existem parceiros de treino, respeito, lealdade e confiança mútua.
  • Nunca sacrificar a eficiência de uma técnica pensando em competições. Para isso existem treinamentos adequados próximos aos mesmos (luta é luta e campeonato é campeonato). Os campeonatos são importantes para avaliar a parte psicológica do atleta e como ele atua sob pressão, mas as medalhas e os troféus com o tempo enferrujam, mas o Karate-do é para a vida inteira, dentro e fora do Dojo.
  • Aprendi que o Kumite é uma batalha mental e como a mente deve estar no momento da luta. Se com a idade de perde a velocidade, essa deve ser compensada pelo aumento da percepção.
  • Entendi como se deve comportar em um conflito real, saber avaliar a necessidade e as consequências de nossas ações e procurar ter o bom senso de tomar a decisão correta. O Kumite se inicia bem antes da luta começar e uma vez deflagrado o comando cerebral de lutar, a decisão e a ação devem ser praticamente simultâneas e não existe espaço para hesitação uma vez que a decisão foi tomada.
  • Aprendi que eu preciso dar mais valor ao treinamento de Kata, gostando ou não, devo treiná-los com mais seriedade e tentar estudá-los mais profundamente.

Mesmo sem dar aulas, hoje sinto confiança em ensinar ou corrigir um aluno iniciante ou um de meus Kohais naquilo que aprendi no curso.

Na minha opinião pessoal, o Curso de Instrutores é um curso excelente para quem pretende ensinar e treinar Karate-do com seriedade (não é um lugar para quem quer apenas o karatê recreativo). É praticamente impossível chegar ao final do curso sem aprender bastante.

Acho muito difícil formar bons atletas para o futuro quando os mesmos já estão cheios de erros e vícios (os professores também). O ideal é começar certo desde o início e por isso o karate no Japão é tão bom e uniforme.

Eu sinceramente adoraria de ter feito esse curso 20 ou 30 anos atrás, mas ainda assim, valeu a pena cada treino e cada gota de suor derramado.

Oss!

FranciscoSergioDrCurriculum